quinta-feira, 28 de outubro de 2010

57

A mesma ponderação clássica que recai sobre a história profana deve ser válida para a história sacra. Mudam suas figuras. Saem a coragem dos heróis no campo de batalha e o severo exemplo da moderação no poder; surgem a modéstia do mártir e a humildade do pastor. Esta música quer realçar a linhagem que começa em Abel, que cuidava de ovelhas, segue por Estevão e chega ao fiel, sentado em seu banco de igreja em Leipzig.

A ponderação musical começa pela Epístola, invocando a Perseguição, a Contestação, pois que é por esse meio que vem a Coroa da Vida. Muito pior, responde a alma em ária terrível, seria o desamor de Jesus, pior que a tristeza do inferno. Jesus celebra, entretanto, em música triunfante que o inimigo foi golpeado.

A Contestação, antes temida, se desvanece e o fiel proclama alegremente que quer terminar sua vida rapidamente. A voz do soprano, que também é a alma humana, inocente, angustiada, se oferece em sacrifício e diretamente pergunta : qual o meu prêmio?

A resposta do coral é a mensagem do pastor musical, que deixa o diálogo entre as vozes e assume novamente o sermão. O curso da história revela seu significado: não temas.



terça-feira, 20 de julho de 2010

134

A música, considerada como interpretação da Escritura, oferece aqui uma sublime lição. O Evangelho do dia, referido em seus primeiros compassos, é o capítulo 13 de Atos, versos 26 a 33. É sobre a pregação de Paulo em Antioquia, em uma sinagoga, no sábado, e é também sobre a confiança do Apóstolo em falar de Jesus aos judeus. Muitos o seguiram, muitos, porém, os perseguiram: Paulo e Barnabé foram lançados fora de seus termos. Pouco importa, pois o último verso do capítulo afirma: "E os discípulos estavam cheios de alegria".

Desde o primeiro coro, o tema da composição é a alegria de crer e cantar essa fé. Clamar aos quatro ventos, espalhar por toda parte, ajudando o engenho e a arte, e produzir, como na ária para tenor e alto, aquela metonímia tão apreciada pelo autor. Se os versos do poema prometem a oferenda dos lábios, a melodia e as vozes cumprem a promessa. Resta mesmo espaço para arriscar uma versão sonora das perseguições que sofre a Igreja.

Tão cheias de vida são essas composições que o autor não vê razão para um coral final. Redobra sua aposta em um coro a quatro vozes, com oboés e cordas, em que ribombam os Céus, alegra-se a Terra e a hoste dos crentes canta louvores ao Altíssimo.

O compositor, como se pode notar, não traz suas melodias para uma alegria mundana. Quer reviver os primeiros dias da Fé, quando Paulo e seus discípulos seguiam pelas estradas romanas falando de Jesus para gregos e judeus, sendo ouvidos ou escarnecidos, mas sempre com o mesmo ânimo.


Tenor
Ein Herz, das seinen Jesum lebend weiß,
Empfindet Jesu neue Güte
Und dichtet nur auf seines Heilands Preis.

Alt
Wie freuet sich ein gläubiges Gemüte.


Tenor
Um coração que seu Jesus sabe vivo,
Sente de Jesus um novo Bem
e faz versos somente para exaltar o Salvador

Alto
Como se alegra um Ânimo crente.




quinta-feira, 1 de julho de 2010

109

A contemplação constante do terror, o incessante turbilhão da loucura humana e o sofrimento de uma dor sem remédio empurram o coração para a Fé. Acreditar, contudo, nem sempre funciona. Em meio ao tormento, sem ver saída, não é fácil conquistar a serenidade da Fé. E, assim, disse o pai do menino: eu creio, mas ajuda minha incredulidade.

Deixem que os santos se gloriem em sua calma. Para todo o resto de nós, persiste a convivência com a dúvida e a angústia. A Fé é um dom, uma dádiva. Não crê quem apenas quer crer: há um limiar a ser transposto. Um limiar em nosso desespero, possessão, oração, jejum e penitência.

Essa composição em tonalidade ocre não pretende resolver esse dilema. Sua chave está na ária para alto: a Fé segue longe de nosso alcance, mas o Salvador nos conhece, conhece os seus e vem ajudar. No limiar, estaremos acompanhados. Soam doces os oboés.

Sobre o sermão final, o coral, ainda pairam demônios, infortúnios e perigos. Em ré menor, ele adverte a construir sobre essa rocha. Deus ajuda, mas a Fé precisa entrar em seu coração. Ela não estava lá.

Ich glaube, lieber Herr, hilf meinem Unglauben!

“Eu creio, ó Senhor, mas ajuda-me na incredulidade!”



terça-feira, 15 de junho de 2010

8

Entre parênteses, um traço separa duas datas. A primeira é celebrada todos os anos; a segunda é desconhecida, mas espreita no calendário. A cada dia, marchamos em sua direção, por mais gloriosa que seja nossa existência, assim tingida sempre de certa tristeza. Perguntamos de nosso quando, mas não queremos realmente saber que ele existe.

E sabemos que depois da hora derradeira, a luz do sol continuará caindo sobre os verdes gramados e os pássaros cantarão enquanto segue o cortejo de passos lentos. Tantas vezes vimos essa cena e nos amarguramos para nada.

Parece absurda a crença na redenção da carne, mas também é absurda a crença na vida, que nasce para terminar. Assim, Jesus interrompe o cortejo e devolve o alento a quem o perdeu. Porque essa é a única esperança, há dança e júbilo nessa música. O dobre de finados se transforma em dobre de alegria.

Em vão se buscará, contudo, uma confiança perfeitamente luminosa nessa composição. O coral não esconde seu espírito crepuscular. Era tarde já quando a viúva de Nain seguiu sem esperança para o cemitério.


Liebster Gott, wann werd ich sterben?
Meine Zeite läuft immer hin,
und des alten Adams Erben,
unter denen ich auch bin,
haben dies zum Vaterteil,
DaB sie nicht eine kleine Weil
arm und elend sein auf Erden
und denn selber Erde werden.

Deus amado, quando irei morrer?
Meu tempo aqui se esvai,
e os filhos do velho Adão,
entre os quais sou contado,
receberam como herança
não passar senão um momento
pobres e miseráveis sobre a Terra
antes de se tornar eles mesmos terra.



terça-feira, 8 de junho de 2010

81

O mais curto versículo da Bíblia é também um dos mais fortes. Os simples fatos da vida, olhados de perto, estão cheios de significado. O minuto que passa em silêncio é precioso: passa para sempre. Uma pergunta basta, às vezes, para definir uma vida ou para escrever um livro. Uma frase, lida de relance, traz premonições. Se Jesus dorme, que devo esperar?

A parábola, contudo, é tão conhecida e tão direta em si mesma, que o compositor evita a exegese e prefere recriar, em música, a cena familiar. Primeiro oferece as ondas sobre o mar, os ventos bravios e a fúria de Belial. Quem ouve, segue no barco, em meio à tormenta. Depois, ele faz vivo o milagre na voz de Jesus que ordena calma ao mar alto. A passagem do Evangelho tem uma certa dose de humor e ela também aparece nos exageros da partitura.

As árias terminam, assim, servindo de moldura colorida para o recitativo magnífico entre tantos, que resume e ilumina uma história quase engraçada sobre pescadores em apuros. Ele sublinha a interrogação misteriosa do versículo curto de Mateus 8, 26: homens de pouca fé, porque temeis?

Ao fim, a tela barroca perde suas cores exuberantes e seus corpos em movimento, as ondas desaparecem, e também os rostos espavoridos. Há apenas o singelo coral final que fala do fim das tempestades e dos trovões. Que fala da paz.


Jesus schläft, was soll ich hoffen?
Seh ich nicht
Mit erblasstem Angesicht
Schon des Todes Abgrund offen?

“Jesus dorme, que devo esperar?
Não vejo
Com pálida face
Aberto o Abismo da Morte?


quinta-feira, 27 de maio de 2010

1

Os antigos poemas que celebram os heróis produzem tanta mágica com singelos apodos. A um, os versos chamam domador de cavalos; a outro, eversor de cidades; não ouvimos mais os acordes da lira e da flauta, mas não esquecemos as palavras. Para cantar o nascimento do invencível herói de Judá, teremos, contudo, de novo o sopro da música mais radiante e o rapsodo somará seus nomes de tal forma que os séculos não poderão esquecer.

Pois o Anjo veio diante de Maria para dizer que ele é como a Estrela da Manhã, cheio da Graça e da Verdade do Senhor, e é o doce rebento de Jessé e também o Rei e o Noivo de minha alma. O coração salta, como as notas na partitura, e dançamos e cantamos porque uma criança vai nascer e não há notícia como essa em todo o mundo.

Não há mais como conter o espantoso esplendor barroco dessa música. Ela se expande para falar de chamas que consomem os peitos, a gozar ainda na Terra nas declícias celestes, prometer a consumação de bocas e notas que jamais cessarão de trazer cânticos de louvor. É ela mesma o louvor para o grande Rei, promessa que cumpre em si mesma.

E quando esperávamos o cansaço, a contrição e a prece, o compositor diz  que está profundamente feliz. Invoca o coral do Alfa e do Ômega, ergue dois Améns ao céu e afirma que ansiosamente espera. Não demores, pois.

Wie schön leuchtet der Morgenstern
Voll Gnad und Warheit von dem Hern,
Die süBe Wurzel Jesse!
Du Sohn Davids aus Jakobs Stamm
Mein König und mein Bräutigam
Hast mir mein Herz besessen,
Lieblich
Freudlich
Schön und herrlich
GroB und ehrlich
Reich von Gaben,
Hoch und sehr prächtig erhaben.


Como brilha a estrela da manhã,
Plena da Graça e Verdade do Senhor,
Doce rebento de Jessé!
Tu, filho de David, do ramo de Jacó
Rei e Noivo
Arrebataste meu coração
Com amor
Com alegria
Belo e poderoso
Grande e digno
Rico de dons
Alto, mui augusto e elevado.



terça-feira, 18 de maio de 2010

4

Na primeira camada de significados está a terrível história judia, a libertação do povo de Israel do cativeiro no Egito, quando a mão de Deus feriu a Terra e os homens. Sobre ela, vem a ressurreição de Jesus, a Páscoa definitiva, quando o primeiro o judeu, depois o grego, recebem a promessa da vida eterna. Então vêm a poesia e a música que trouxeram a luz para as florestas e pântanos dos germanos, soando em meio a brumas e ao frio intolerável para proclamar que Jesus está novamente alevantado. E depois vêm a exaltação da fé protestante diante do sepulcro e da mortalha.

Como se não bastasse, o compositor decide evitar qualquer ornamento. O texto e a melodia do coral soam em toda sua noturna severidade, porque afinal o sangue marca a porta do crente e o Cordeiro sacrificado arde amoroso no alto do madeiro da Cruz. As vozes se inflamam; o contraponto é veículo da angústia. A música se transforma escultura - um crepuscular retábulo de sons ocres.

Mas o contraponto é também veículo da luta e da libertação; posto que o aguilhão tombou; o carrasco não pode mais nos ferir e o próprio nome da Morte é escárnio. Há combate e violência e uma morte devorou a outra Morte. Celebra-se uma alta festa e a noite acabou. O crepúsculo, na verdade, era amanhecer.

Mesmo tão pejada de símbolos, de memórias e de séculos, essa música não se verga, nem perde a direção. Quer ser precisamente um hino de combate e de vitória e consegue.


Christ lag in Todesbanden
Für unsre Sünd gegeben
Er ist wieder erstanden
und hat uns bracht das Leben;
Des wir sollen frölich sein
Gott loben und ihm dankbar sein
und singen Halleluja!
Halleluja!

Cristo jaz em mortalhas
por nossos pecados levado.
De novo ele está alevantado
E a nós trazendo a Vida
Devemos todos, alegres,
Dar graças, louvar a Deus
E cantar Aleluia!
Aleluia!