sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

122

Não se entende muito bem porque os anjos devem ter asas. As direções do céu e da terra e o peso dos corpos existem apenas para os seres feitos de carne. Para Deus, não existe o alto ou o baixo, o norte e o sul; e seus anjos, como o Espírito, vão por onde querem. As asas são apenas para nossos olhos, para nosso entendimento preso à Terra: em verdade, os anjos de nada precisam para nos cercar em redemoinhos, por todos os lados, pois é certo que se movem.

Assim, sempre que há anjos, sobre a manjedoura, ou chamando pastores, ou presidindo benfazejos a abertura de um novo ano, a música do compositor não fala de asas: prefere deixar esses acordes para as águias. Sempre que há anjos, as melodias flutuam em torno de nós, cheias de certo mistério, em turbilhões que diríamos sombrios, quase noturnos. Uma presença que é como o vento, para o qual não há norte, nem sul, nem alto ou baixo, bate as janelas, arrepia a pele, empurra a branca vela dos barcos.

Como o ano novo sempre chega após a meia-noite, a cantata ergue, em seguida, ao céu escuro uma prece solene, pois a boa mensagem chegou: o menino nasceu e nada mais - os portões do Inferno, o Diabo - pode nos roubar da consolação. É noite, podemos estar em febre, podemos estar com medo, mas estamos protegidos.

É, portanto, tempo de cantar, tempo de alegria, como anuncia o coral. Os anjos estão aqui e também o pequeno Jesus. Feliz Ano novo!


terça-feira, 14 de dezembro de 2010

25

Comentadores descrevem esse coro inicial como "pleno de arte". De fato, intrincado ele é: as palavras do Salmo 38 são elaboradas primeiro em uma fuga coral, cujas vozes são, em seguidas, trocadas; depois, nova fuga coral, sobre outro verso, e, por fim, uma combinação de ambos os temas. Enquanto isso, flautas e metais cantam o hino de Leo Hassler, "Ah Senhor, pobre de mim pecador". Solene, estranha, insólita - a música descreve com rigor a paradoxal situação da carne, vulnerável à doença e ao pecado.

A floresta de referências musicais e religiosas prossegue no recitativo do "mundo como hospital", uma metáfora tão viva na obra de Sir Thomas Browne como em um quarteto de T.S. Eliot. É surpreendente notar a semelhança textual entre a seção IV de East Coker e o poema musicado pelo Mestre, provavelmente escrito por Picander. A mesma meditação sobre o nosso estado nesse mundo, nossa ilusória saúde e sobre nosso verdadeiro médico, the wounded surgeon, nas palavras de Eliot; Herr Jesu, no verso da ária para baixo.

Até esse ponto, há apenas uma obra prima musical, entrelaçada com imagens poéticas capazes de chegar ao século XX. Então, surge a ária para soprano cujo sopro delicado e gentil, quase etéreo, afasta a sombra do luto trazida pelas peças anteriores. É uma prece dirigida ao doutor Jesus, pedindo graça, oferecendo louvor. Há mais, contudo.

É evidente o contraste entre a espantosa beleza musical da peça e seu texto. O poema diz que, quando o compositor estiver no coro dos anjos, sua música soará melhor. A melodia ouvida na cantata, portanto, é de menor qualidade, ligada à carne do homem. Ou estará o compositor anunciando, desde agora, como será a música do Paraíso? Ou compondo como se lá estivesse? Ou menosprezando de forma oblíqua uma de suas melhores criações? Espelhos diante de espelhos...


quinta-feira, 28 de outubro de 2010

57

A mesma ponderação clássica que recai sobre a história profana deve ser válida para a história sacra. Mudam suas figuras. Saem a coragem dos heróis no campo de batalha e o severo exemplo da moderação no poder; surgem a modéstia do mártir e a humildade do pastor. Esta música quer realçar a linhagem que começa em Abel, que cuidava de ovelhas, segue por Estevão e chega ao fiel, sentado em seu banco de igreja em Leipzig.

A ponderação musical começa pela Epístola, invocando a Perseguição, a Contestação, pois que é por esse meio que vem a Coroa da Vida. Muito pior, responde a alma em ária terrível, seria o desamor de Jesus, pior que a tristeza do inferno. Jesus celebra, entretanto, em música triunfante que o inimigo foi golpeado.

A Contestação, antes temida, se desvanece e o fiel proclama alegremente que quer terminar sua vida rapidamente. A voz do soprano, que também é a alma humana, inocente, angustiada, se oferece em sacrifício e diretamente pergunta : qual o meu prêmio?

A resposta do coral é a mensagem do pastor musical, que deixa o diálogo entre as vozes e assume novamente o sermão. O curso da história revela seu significado: não temas.



terça-feira, 20 de julho de 2010

134

A música, considerada como interpretação da Escritura, oferece aqui uma sublime lição. O Evangelho do dia, referido em seus primeiros compassos, é o capítulo 13 de Atos, versos 26 a 33. É sobre a pregação de Paulo em Antioquia, em uma sinagoga, no sábado, e é também sobre a confiança do Apóstolo em falar de Jesus aos judeus. Muitos o seguiram, muitos, porém, os perseguiram: Paulo e Barnabé foram lançados fora de seus termos. Pouco importa, pois o último verso do capítulo afirma: "E os discípulos estavam cheios de alegria".

Desde o primeiro coro, o tema da composição é a alegria de crer e cantar essa fé. Clamar aos quatro ventos, espalhar por toda parte, ajudando o engenho e a arte, e produzir, como na ária para tenor e alto, aquela metonímia tão apreciada pelo autor. Se os versos do poema prometem a oferenda dos lábios, a melodia e as vozes cumprem a promessa. Resta mesmo espaço para arriscar uma versão sonora das perseguições que sofre a Igreja.

Tão cheias de vida são essas composições que o autor não vê razão para um coral final. Redobra sua aposta em um coro a quatro vozes, com oboés e cordas, em que ribombam os Céus, alegra-se a Terra e a hoste dos crentes canta louvores ao Altíssimo.

O compositor, como se pode notar, não traz suas melodias para uma alegria mundana. Quer reviver os primeiros dias da Fé, quando Paulo e seus discípulos seguiam pelas estradas romanas falando de Jesus para gregos e judeus, sendo ouvidos ou escarnecidos, mas sempre com o mesmo ânimo.


Tenor
Ein Herz, das seinen Jesum lebend weiß,
Empfindet Jesu neue Güte
Und dichtet nur auf seines Heilands Preis.

Alt
Wie freuet sich ein gläubiges Gemüte.


Tenor
Um coração que seu Jesus sabe vivo,
Sente de Jesus um novo Bem
e faz versos somente para exaltar o Salvador

Alto
Como se alegra um Ânimo crente.




quinta-feira, 1 de julho de 2010

109

A contemplação constante do terror, o incessante turbilhão da loucura humana e o sofrimento de uma dor sem remédio empurram o coração para a Fé. Acreditar, contudo, nem sempre funciona. Em meio ao tormento, sem ver saída, não é fácil conquistar a serenidade da Fé. E, assim, disse o pai do menino: eu creio, mas ajuda minha incredulidade.

Deixem que os santos se gloriem em sua calma. Para todo o resto de nós, persiste a convivência com a dúvida e a angústia. A Fé é um dom, uma dádiva. Não crê quem apenas quer crer: há um limiar a ser transposto. Um limiar em nosso desespero, possessão, oração, jejum e penitência.

Essa composição em tonalidade ocre não pretende resolver esse dilema. Sua chave está na ária para alto: a Fé segue longe de nosso alcance, mas o Salvador nos conhece, conhece os seus e vem ajudar. No limiar, estaremos acompanhados. Soam doces os oboés.

Sobre o sermão final, o coral, ainda pairam demônios, infortúnios e perigos. Em ré menor, ele adverte a construir sobre essa rocha. Deus ajuda, mas a Fé precisa entrar em seu coração. Ela não estava lá.

Ich glaube, lieber Herr, hilf meinem Unglauben!

“Eu creio, ó Senhor, mas ajuda-me na incredulidade!”



terça-feira, 15 de junho de 2010

8

Entre parênteses, um traço separa duas datas. A primeira é celebrada todos os anos; a segunda é desconhecida, mas espreita no calendário. A cada dia, marchamos em sua direção, por mais gloriosa que seja nossa existência, assim tingida sempre de certa tristeza. Perguntamos de nosso quando, mas não queremos realmente saber que ele existe.

E sabemos que depois da hora derradeira, a luz do sol continuará caindo sobre os verdes gramados e os pássaros cantarão enquanto segue o cortejo de passos lentos. Tantas vezes vimos essa cena e nos amarguramos para nada.

Parece absurda a crença na redenção da carne, mas também é absurda a crença na vida, que nasce para terminar. Assim, Jesus interrompe o cortejo e devolve o alento a quem o perdeu. Porque essa é a única esperança, há dança e júbilo nessa música. O dobre de finados se transforma em dobre de alegria.

Em vão se buscará, contudo, uma confiança perfeitamente luminosa nessa composição. O coral não esconde seu espírito crepuscular. Era tarde já quando a viúva de Nain seguiu sem esperança para o cemitério.


Liebster Gott, wann werd ich sterben?
Meine Zeite läuft immer hin,
und des alten Adams Erben,
unter denen ich auch bin,
haben dies zum Vaterteil,
DaB sie nicht eine kleine Weil
arm und elend sein auf Erden
und denn selber Erde werden.

Deus amado, quando irei morrer?
Meu tempo aqui se esvai,
e os filhos do velho Adão,
entre os quais sou contado,
receberam como herança
não passar senão um momento
pobres e miseráveis sobre a Terra
antes de se tornar eles mesmos terra.



terça-feira, 8 de junho de 2010

81

O mais curto versículo da Bíblia é também um dos mais fortes. Os simples fatos da vida, olhados de perto, estão cheios de significado. O minuto que passa em silêncio é precioso: passa para sempre. Uma pergunta basta, às vezes, para definir uma vida ou para escrever um livro. Uma frase, lida de relance, traz premonições. Se Jesus dorme, que devo esperar?

A parábola, contudo, é tão conhecida e tão direta em si mesma, que o compositor evita a exegese e prefere recriar, em música, a cena familiar. Primeiro oferece as ondas sobre o mar, os ventos bravios e a fúria de Belial. Quem ouve, segue no barco, em meio à tormenta. Depois, ele faz vivo o milagre na voz de Jesus que ordena calma ao mar alto. A passagem do Evangelho tem uma certa dose de humor e ela também aparece nos exageros da partitura.

As árias terminam, assim, servindo de moldura colorida para o recitativo magnífico entre tantos, que resume e ilumina uma história quase engraçada sobre pescadores em apuros. Ele sublinha a interrogação misteriosa do versículo curto de Mateus 8, 26: homens de pouca fé, porque temeis?

Ao fim, a tela barroca perde suas cores exuberantes e seus corpos em movimento, as ondas desaparecem, e também os rostos espavoridos. Há apenas o singelo coral final que fala do fim das tempestades e dos trovões. Que fala da paz.


Jesus schläft, was soll ich hoffen?
Seh ich nicht
Mit erblasstem Angesicht
Schon des Todes Abgrund offen?

“Jesus dorme, que devo esperar?
Não vejo
Com pálida face
Aberto o Abismo da Morte?


quinta-feira, 27 de maio de 2010

1

Os antigos poemas que celebram os heróis produzem tanta mágica com singelos apodos. A um, os versos chamam domador de cavalos; a outro, eversor de cidades; não ouvimos mais os acordes da lira e da flauta, mas não esquecemos as palavras. Para cantar o nascimento do invencível herói de Judá, teremos, contudo, de novo o sopro da música mais radiante e o rapsodo somará seus nomes de tal forma que os séculos não poderão esquecer.

Pois o Anjo veio diante de Maria para dizer que ele é como a Estrela da Manhã, cheio da Graça e da Verdade do Senhor, e é o doce rebento de Jessé e também o Rei e o Noivo de minha alma. O coração salta, como as notas na partitura, e dançamos e cantamos porque uma criança vai nascer e não há notícia como essa em todo o mundo.

Não há mais como conter o espantoso esplendor barroco dessa música. Ela se expande para falar de chamas que consomem os peitos, a gozar ainda na Terra nas declícias celestes, prometer a consumação de bocas e notas que jamais cessarão de trazer cânticos de louvor. É ela mesma o louvor para o grande Rei, promessa que cumpre em si mesma.

E quando esperávamos o cansaço, a contrição e a prece, o compositor diz  que está profundamente feliz. Invoca o coral do Alfa e do Ômega, ergue dois Améns ao céu e afirma que ansiosamente espera. Não demores, pois.

Wie schön leuchtet der Morgenstern
Voll Gnad und Warheit von dem Hern,
Die süBe Wurzel Jesse!
Du Sohn Davids aus Jakobs Stamm
Mein König und mein Bräutigam
Hast mir mein Herz besessen,
Lieblich
Freudlich
Schön und herrlich
GroB und ehrlich
Reich von Gaben,
Hoch und sehr prächtig erhaben.


Como brilha a estrela da manhã,
Plena da Graça e Verdade do Senhor,
Doce rebento de Jessé!
Tu, filho de David, do ramo de Jacó
Rei e Noivo
Arrebataste meu coração
Com amor
Com alegria
Belo e poderoso
Grande e digno
Rico de dons
Alto, mui augusto e elevado.



terça-feira, 18 de maio de 2010

4

Na primeira camada de significados está a terrível história judia, a libertação do povo de Israel do cativeiro no Egito, quando a mão de Deus feriu a Terra e os homens. Sobre ela, vem a ressurreição de Jesus, a Páscoa definitiva, quando o primeiro o judeu, depois o grego, recebem a promessa da vida eterna. Então vêm a poesia e a música que trouxeram a luz para as florestas e pântanos dos germanos, soando em meio a brumas e ao frio intolerável para proclamar que Jesus está novamente alevantado. E depois vêm a exaltação da fé protestante diante do sepulcro e da mortalha.

Como se não bastasse, o compositor decide evitar qualquer ornamento. O texto e a melodia do coral soam em toda sua noturna severidade, porque afinal o sangue marca a porta do crente e o Cordeiro sacrificado arde amoroso no alto do madeiro da Cruz. As vozes se inflamam; o contraponto é veículo da angústia. A música se transforma escultura - um crepuscular retábulo de sons ocres.

Mas o contraponto é também veículo da luta e da libertação; posto que o aguilhão tombou; o carrasco não pode mais nos ferir e o próprio nome da Morte é escárnio. Há combate e violência e uma morte devorou a outra Morte. Celebra-se uma alta festa e a noite acabou. O crepúsculo, na verdade, era amanhecer.

Mesmo tão pejada de símbolos, de memórias e de séculos, essa música não se verga, nem perde a direção. Quer ser precisamente um hino de combate e de vitória e consegue.


Christ lag in Todesbanden
Für unsre Sünd gegeben
Er ist wieder erstanden
und hat uns bracht das Leben;
Des wir sollen frölich sein
Gott loben und ihm dankbar sein
und singen Halleluja!
Halleluja!

Cristo jaz em mortalhas
por nossos pecados levado.
De novo ele está alevantado
E a nós trazendo a Vida
Devemos todos, alegres,
Dar graças, louvar a Deus
E cantar Aleluia!
Aleluia!



segunda-feira, 10 de maio de 2010

103

Quando estamos com febre, o mundo nos parece penoso e estridente. O ritmo das coisas nos incomoda, já não podemos acompanhá-lo. Se as crianças brincam no pátio, se a música soa mais alto, se há alegria em torno, não suportamos e pedimos silêncio. A alegria do mundo, porém, não se cala e soa aguda como o flautim que percorre essa partitura malsã. Choramos e nos lamentamos, mas ninguém se importa com nossa tristeza. Estamos doentes porque Jesus nos deixou e apenas ele pode transformar a tristeza em alegria.

O compositor dessa música não ficaria surpreso com a descoberta moderna de que a tristeza é uma forma de doença, talvez o primeiro sintoma de uma grave enfermidade. A depressão contemporânea tem início com pensamentos sombrios e circulares e com uma decidida irritação com o mundo. Hoje como ontem, o triste busca o isolamento dos flautins da vida. A melancolia do passado sentia a ausência de Jesus, mas ao menos elevava sua prece ao único médico da alma.

Nesse ponto, a mágica acontece e o mesmo instrumento que descrevia o riso jogado à face dos que estavam tristes e lamentavam sustenta a ária que declara a busca do único médico da alma, aquele por quem o coração espera.

O resto é consequência e metáfora. Os saltos da ária para tenor são os paralíticos que se levantam por ordem de Jesus e os que dançam porque ele há de voltar. No coro final, Jesus afirma que o sofrimento se transformará em bem aventurança. Os sons do flautim são apenas uma lembrança.


Chor
Ihr werdet weinen und heulen, aber die Welt wird sich freuen.
Bass
Ihr aber werdet traurig sein.
Doch eure Traurigkeit soll in Freude verkehret werden.


Coro
Chorareis e lamentareis, mas o mundo se alegrará.
Baixo
E vós estareis tristes; mas a vossa tristeza se converterá em regozijo. (Jo. 16, 19)


quarta-feira, 28 de abril de 2010

182

Por várias vezes, caminhando pelas ruas do Rio de Janeiro, fui abordado por pregadores evangélicos que me perguntavam com ênfase se havia recebido a Jesus em meu coração. Por não ser um dos crentes e mesmo sem muita certeza sobre a sinceridade dos que me interrogavam, não deixava de sentir o desafio espiritual lançado por aqueles humildes personagens, em seus ternos baratos, suas Bíblias puídas, ao condescendente e racional estudante universitário. A fé em Jesus é uma fé como tantas outras a questionar o homem com sua exigência extrema de compromisso existencial.

Foi também nas ruas do Rio de Janeiro onde encontrei a loja de discos usados em que comprei um velho LP com essa música. Desde que ouvi sua sinfonia e seu coro pela primeira vez, imagino ter compreendido melhor o desafio evangélico e também a arte de seu eminente autor. Eles cantam a entrada de Jesus em Jerusalém, no domingo de Ramos, mas na verdade a música não trata da famosa cidade e apenas faz referência ao evento do Evangelho. A música é sobre a entrada de Jesus no coração de cada um, ao mesmo tempo com humildade e com festa. Um cântico de boas vindas para aquele que nada quer lhe roubar.

As demais árias, todas brilhantes e cheias de ternura, vão recapitulando as várias experiências pessoais de quem recebeu a Jesus, a contemplação de seu amor, o sentido de submissão, o desejo de segui-lo no bem ou no mal.

A solução de toda obra, contudo, vem no coro final. Nele está evidente que o Rei dos Céus abre o caminho para a Salém da Alegria, mas quem o segue de perto, jogando ao alto guirlandas de música, é o autor dessa obra tão delicada e emocional.



Himmelskönig, sei willkommen,
Laß auch uns dein Zion sein!
Komm herein,
Du hast uns das Herz genommen.


Rei do Céu, sê bem-vindo,
Deixa-nos ser tua Sião!
Vem, vem,
Tu hás nosso coração cativado.



segunda-feira, 26 de abril de 2010

181

Haveria uma música para a frivolidade humana? Nada de brilhos e fanfarras vienenses para celebrar passatempos, mas uma música moral capaz de condenar a tolice e a perda de tempo com assuntos irrelevantes sem o rigor sombrio de um sermão. Sem infundir beleza ao que não tem substância e sem investir em carolice. É o que faz essa falsa música galante, cheia de saltos e notas rápidas.

Depois, certa agitação ao órgão começa a lembrar dos riscos das preocupações terrenas, o alimento do fogo eterno e do tormento do inferno. Depois de falsear a si mesmo, a música retoma a seriedade e a angústia diante das consquências de nossos atos. O peso da recusa da Palavra.

A obra, contudo, não pode terminar nesse confronto preocupante entre a frivolidade e as penas prometidas aos inconsequente e aos tolos. A Palavra precisa retomar o brilho de sua promessa e o coro final restaura a seriedade estética com uma bela frase para o trompete e a elegante polifonia vocal. Esta sim é a verdadeira alegria da alma.

A idéia de música como sermão ou mera expressão de uma lição ética costuma dar origem a mistificações das mais variadas ou empoladas reinvidicações de superioridade moral. Ou mesmo errar completamente o alvo, elogiando o vício a ser denunciado. Não é o caso, aqui.


Leichtgesinnte Flattergeister
Rauben sich des Wortes Kraft.
Belial mit seinen Kindern
Suchet ohnedem zu hindern,
Dass es keinen Nutzen schafft.

Frívolos espíritos agitados
Roubam de si o Poder da Palavra.
Belial com suas Crias
De todo jeito a prejudica
Para que não tenha Proveito.


sexta-feira, 23 de abril de 2010

180

Tudo que merece ser sabido encerra algo de belo, mas não está claro se Deus busca a beleza nas almas. Ele as criou e pôs a salvação como prêmio da fé. Concedeu ao homem o livre arbítrio para fazer escolhas morais corretas e não para se conduzir da forma mais agradável ao olhar. Por que recusar, contudo, esta dádiva, uma vez que horrendo é o pecado? Assim, a alma em seu caminho se enfeita como uma noiva e vem para a luz.

O propósito dessa música, sem qualquer dúvida, é a oferta graciosa do belo. São flores brancas, diáfanas telas, pérolas musicais, flautas em arranjos delicadamente feitos sobre fios de cabelo, penteados e perfumados. Ela se prepara, examina, olha no espelho, pois não há mais dúvida sobre a vinda da salvação e do encontro sob a luz. Precisa estar bela como a noiva.

Como sempre há de ser, depois da preparação vem a festa e o mais terno dos recitativos celebra os dons da ceia celestial e a fome e a sede de quem espera. O coral encerra a música anunciando que Jesus é o verdadeiro pão da vida.

Muita tinta correu e ainda correrá no debate sobre o sentido da música e sobre a teoria dos afetos: o assunto desafia a existência de uma demonstração rigorosa. Aqui, porém, o artista superou com brilho inegável o desafio de traduzir em sons a intenção da alma de estar bela, como pede o verso do coral.


Schmücke dich, o liebe Seele,
Laß die dunkle Sündenhöhle,
Komm ans helle Licht gegangen,
Fange herrlich an zu prangen;
Denn der Herr voll Heil und Gnaden
Läßt dich itzt zu Gaste laden.
Der den Himmel kann verwalten,
Will selbst Herberg in dir halten.


Atavia-te, ó Alma querida,
Deixa o sombrio fosso do Pecado,
Vem para a brilhante Luz que se fez,
Põe-te gloriosamente a resplender;
Pois o Senhor da Salvação e da Graça
Deixa-te vir como Hóspede.
Aquele que o Céu comanda,
Em ti encontrará um Albergue.

 

segunda-feira, 19 de abril de 2010

173

São muitos os paradoxos criados pela presença imediata de Deus na História e assumir a carne e o sangue de um homem não é o menor deles. Esse é o escândalo da religião de Cristo. Muitas heresias se levantaram em revolta contra a presença do insondável Criador do Universo na matéria da frágil forma humana. A poesia e esta música não parecem estar, portanto, à altura da ocasião.

Os versos registram sem maior brilho a abundância dos bens enviados por Deus aos homens, a obrigação de cantar em agradecimento e de apresentar a boa oferenda. A deliciosa música, ao que tudo indica, veio de uma prosaica celebração secular e presta seus respeitos à boa ordem no principado de Kothen. Há quem veja nesta conjugação de verso e música apenas um exemplo de expediência artística.

Pensemos, contudo, um pouco mais, movendo nosso ponto de vista do espantoso milagre cósmico da Encarnação para seu sentido mais terreno. E se subitamente nossa carne e nosso sangue tão vulneráveis à dor, à doença, ao sofrimento, recebessem a promessa da redenção?

Não seria o mundo, então, doce como uma serenata musical? A exaltação de Deus não estaria cheia de amor como um leve dueto italiano? Bem seria uma forma de transfiguração: Jesus trouxe a paz e essa é a música da paz.


Erhöhtes Fleisch und Blut,
Das Gott selbst an sich nimmt,
Dem er schon hier auf Erden
Ein himmlisch Heil bestimmt,
Des Höchsten Kind zu werden,
Erhöhtes Fleisch und Blut!


Carne e Sangue exaltados,
Que Deus sobre si mesmo tomou,
A que ainda na Terra
Uma celestial salvação foi outorgada,
para que se façam Filhos do Altíssimo
Carne e Sangue exaltados.


sexta-feira, 16 de abril de 2010

170

É música que desvela a beleza além das palavras, mas por que não tentar ao menos capturar esse suspiro de felicidade? Ela é como a sensação de fazer o bem em segredo, como pediu Jesus; é como velar o sono de quem dorme sob nossa guarda; como o azul que só existe nas memórias de infância; como a delícia de cantar versos tão belos, o prazer de usar a voz e ouvi-la cantando a felicidade; é como aquela tristeza peculiar que nos vêm quando a tarde cai e estamos em maio.

É como o prazer de estar agasalhado em um dia muito frio; de guardar um segredo muito bom; é música feita para despertar devagarzinho e feita para dormir enquanto o sol se põe; é música para a janela do avião quando há tantas nuvens brancas e a linha do horizonte se tinge de vermelho. Vamos ouvindo, mas ela vai cansando as palavras e desbotando as imagens, seguindo sempre à frente.

Não se deve, portanto, ouvi-la muitas vezes. Quando termina, ficamos tristes: não somos dignos de sua companhia. Como a ninfa das ilhas, ela permanece sempre jovem e bela, enquanto envelhecemos. Precisamos partir.

O deleite desse mundo é apenas um reflexo, uma lembrança, um amparo enquanto a ventura celestial não chega. Então, não é surpresa que a última ária fale alegremente do desgosto de viver. Que nos resta aqui na Terra depois de provar desta sombra da felicidade?



Vergnügte Ruh, beliebte Seelenlust,
Dich kann man nicht bei Höllensünden,
Wohl aber Himmelseintracht finden;
Du stärkst allein die schwache Brust.
Drum sollen lauter Tugendgaben
In meinem Herzen Wohnung haben.


Deleitosa Paz, amado desejo da Alma,
A ti não se encontra no Inferno dos Pecados,
Mas justo na Concórdia do Céu;
Apenas tu fortaleces o fraco Peito.
Assim hão de os altos dons de Virtude
Em meu Coração Morada encontrar.


segunda-feira, 12 de abril de 2010

42

Se as emoções humanas podem ser expressas em música é razoável supor que a música possa criar, ela mesma, emoções antes desconhecidas. Sendo esta proposição correta, concluímos que as possibilidades da música são bem mais amplas que aquelas induzidas pela biologia ou nossa vida social. Nunca se sabe o que está à espreita em uma partitura.

Na tarde daquele mesmo sábado, a tensão e a tristeza da Paixão começavam a se dissipar. O que era morte e luto perdia seu sentido e Jesus dava provas de sua presença. Ele não era mais um homem como nós, mas estava vivo em nossa companhia. A lembrança da tragédia era fresca, mas havia razão para se alegrar. Essa mistura de sofrimento redimido e expectativa das boas coisas está na delicada sinfonia.

O resto é celebração da presença, quando dois se reúnem em seu nome, quando Jesus se revela como escudo na perseguição.

Os artistas quase sempre se vangloriam de expressar sentimentos que estão dentro de nós. Essa música transita no sentido inverso. Nos convida a sair e ver coisas novas, experimentar sentimentos que não sabíamos existir. Sugere emoções.


Am Abend aber desselbigen Sabbats, Da die Jünger versammlet Und die Türen verschlossen waren Aus Furcht für den Jüden, Kam Jesus und trat mitten ein.


“Ao cair da tarde daquele dia, o primeiro da semana, trancadas as portas da casa onde estavam os discípulos com medo dos judeus, veio Jesus, pôs-se no meio” (João 20,19)



sábado, 10 de abril de 2010

146

O solista é, ele mesmo, uma metáfora*. Ainda assumindo um papel destacado da orquestra e desenvolvendo seu próprio discurso musical, o instrumento não tem como fugir de sua intenção original ou de sua tradição. A biografia tende à história; o filho reflete a família. Quando o autor chama o órgão à frente da orquestra, deixando o contínuo para seus sucedâneos, está convocando a poderosa e solitária voz de Deus para o tumulto da orquestra.

Sem reproduzir a melodia coral, que é o fundamento da fé e o domínio do instrumento, o órgão transmuta a peça galante em intenção religiosa. A maestria do equilíbrio entre o ritornello e a orquestra se desdobra em outro plano: a compreensão de que o triunfo virá por meio de dificuldades e lutas, respostas, ataques, contra-ataques, resoluções, disposição para o confronto, tribulação. Em seguida, o que era pausa e prazer se revela como ascensão ao reino estrelado do Céu.

Quanto ao resto, apenas outras versões do Espírito, que sopra por onde quer. Flautas para o lamento, flautas para a semeadura das lágrimas, os oboés para o canto da alegria futura, quando teremos a luz das estrelas e o brilho do Sol. O coral consagra o curso da obra que da tribulação caminha à certeza do Reno dos Céus.

Quem guarda, contudo, essa música na memória, guarda o truque e a mensagem. A severa voz musical de Deus arrebatando a música galante - o que era brilho da mente criadora era também a trabalho do espírito. O que era música, era também soteriologia. Como a matéria e a energia, são a mesma coisa, se prestamos atenção.


Wir müssen durch viel Trübsal in das Reich Gottes eingehen.

“Pois que muitas tribulações nos importa entrar no Reino dos Céus” (Atos 14, 22).








* A expressão solista metafórico foi criada por Laurent Dreuyfuss para descrever exatamente o uso do órgão como solista em várias cantatas do autor.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

79

Existe aqui certamente um tipo maravilhoso de inocência. É preciso atenção para perceber, deixar que o ouvido se enrede na aparente turbulência de trompetes e tímpanos. Sob o esplendor barroco e sob a glória de uma melodia feita para acompanhar as ondas do mar e os cortejos magníficos, filtra-se a ingenuidade dos versos do Salmo, a confiança alegre das crianças que correm em um pátio. Ouvimos e queremos ouvir de novo: ela nos devolve a infância, a crença absoluta em um mundo bom, o gosto de estar protegido e seguro.

Esse mundo tão sem perigos nunca envelhece. A ária para soprano canta deliciosa e declama contra cães blasfemadores, soando quase engraçada. Para que não esqueçamos, contudo, a fanfarra, ela retorna de tão gostosa, agora como prece de graças ao Senhor. O dueto seguinte repete a mesma alegre inocência: é um jogo de vozes, uma corrida, uma disputa, cujo som, uma vez ouvido, nunca é esquecido.

No coral final, acabou a merenda e tocou o sinal do fim do recreio. As crianças fazem silêncio e a professora comanda uma prece, o pedido para que tudo continue como é, para que nossos corações continuem inocentes: guarda-nos na verdade, dá-nos a liberdade. Quando chega essa música, é quase noite.

Bendito seja o artista que, não tendo como nos devolver a inocência alegre dos dias de criança, abre uma delicada janela. Dela ao menos contemplamos o que perdemos, o que não temos mais. Bendito seja o seu nome.


"Gott der Herr ist Sonn und Schild. Der Herr gibt Gnade und Ehre, er wird kein Gutes mangeln lassen den Frommen."


“O Senhor Deus é sol e escudo; o Senhor dará graça e glória; não negará bem algum aos que andam na retidão.” (Salmo 84, 12)



segunda-feira, 29 de março de 2010

62

Não existe outra palavra senão o mistério. A pobre carne do homem, a comida dos túmulos, o pasto de cães e de corvos, foi invadida pelo espírito de Deus. Ele escolheu sobre o mundo o mais espantoso campo de batalha e lutará contra o tempo, a dor e a morte. A História nunca mais será a mesma e o obscuro povo do deserto foi chamado a cumprir um terrível destino. Estamos condenados a assistir um prodígio inexplicável: Deus nasceu de uma virgem, uma pobre moça judia.

Não existe outra música sobre o mistério senão a cantata. O concerto italiano não sugere mais a agitação da alegria ou do curso da vida. É o espelho da mais estranha das estranhas angústias. O Salvador desceu a este mundo para o nosso bem, mas, com isso, tudo mudou. O tempo não mais corre à toa e a vida não tem mais o mesmo sentido. Está em jogo a salvação e também a condenação.

A angústia revelada pela melodia cheia de alarme e tensão se transforma depois em comentário da luta com a carne. Sabemos como a morte é penosa e como é insurpotável a dor. Jesus é o herói que há de lutar por todos. Assistimos, agora, a um combate; angustiados, esperamos o resultado dessa batalha.

A obra não resiste, contudo, a tanta tensão. Entrega-se de coração e finalmente oferece apenas o louvor a Deus, o Pai; a Deus, o Filho e a Deus; o Espírito Santo.


Nun komm, der Heiden Heiland,
Der Jungfrauen Kind erkannt,
Des sich wundert alle Welt,
Gott solch Geburt ihm bestellt.


Vem agora, Salvador dos Pagãos,
Filho da Virgem chamado,
Que maravilhou todo o Mundo,
O Senhor tal nascimento lhe deu.



61

Não existe outra palavra senão o mistério. O criador do infinito Universo, o criador dos números, de cada um dos átomos escolheu vir à Terra e assumir a carne de um homem. Como tantos deuses passados e futuros, Ele poderia exibir entre os homens sua glória e seu poder, fender os céus com relâmpagos e esmagar os exércitos com sua destra. Se Deus quisesse que todos os homens acreditassem, assim seria. Clemente e misericordioso, nasceu de uma virgem, uma pobre moça judia. Há nisso um sinal para os que crêem.

Não existe outra música sobre o mistério senão a cantata. A abertura francesa, imaginada para celebrar ínfimos monarcas terrenos e exaltar uma passageira glória, soa de forma sinistra e estridente, em tom de ameaça. Seus versos vieram do Apocalipse, da boca que anuncia ser o Alfa e Ômega, da boca de onde saía uma espada de dois gumes. As vozes, em fuga, celebram a maravilha do mundo e são elas mesmas a maravilha.

O mistério exaltado pela melodia terrível é depois repetido em um raro recitativo onde soa a voz de Jesus, de acordo com os versos do Apocalipse. O sentido da presença próxima é, então, redobrado: eu estou à porta e bato, para entrar em sua casa e cear. Não sou um distante deus de holocaustos e templos: estou ao lado, sentado à sua mesa.

A obra não resiste, contudo, a tanta tensão. Entrega-se de coração e oferece uma dos mais gloriosos corais criados pelo artista: eu não tenho medo; eu ansiosamente espero a presença.


Nun komm, der Heiden Heiland,
Der Jungfrauen Kind erkannt,
Des sich wundert alle Welt,
Gott solch Geburt ihm bestellt.


Vem agora, Salvador dos Pagãos,
Filho da Virgem chamado,
Que maravilhou todo o Mundo,
O Senhor tal nascimento lhe deu.



segunda-feira, 22 de março de 2010

149

A conciliação entre a música profana e a música religiosa está certamente nos três eixos de coordenadas cartesianas. Basta abandonar um conceito unidimensional de música, entendê-la como um objeto no espaço, livre das convenções do direito autoral ou de concepções simplórias das emoções humanas.

No eixo x, está a música que celebra o aniversário de um monarca esquecido e a promessa de segurança para as ovelhas. Ela invoca as paisagens amáveis e as horas de alegria, mas para demandar a eternidade. Vencida a tristeza, o coração está em júbilo em meio a trompetes e tímpanos. No eixo z, soa a música do Salmo do Senhor, o cântico de vitória dos justos em suas tendas. Agora ela celebra o poder da destra de Deus eterno que faz proezas.

No eixo y, que define a esfera de sons, as múltiplas alegrias se misturam com os sentimentos de vitória. A alegria de viver entre maravilhas convive com o pedido de graças e a segurança de quem está protegido, sejam os justos, sejam as ovelhas. Todos os pontos se unem no intenso desejo de eternidade, por isso cantamos a vitória e celebramos as visões que tanto prazer dão à alma.

A música profana, portanto, é apenas uma operação matemática: reduzir o valor de z a zero. Já a música religiosa reduz x a zero. Em qualquer caso, uma esfera de sons está implícita em + y ou - y. Seu volume, como se sabe, é um múltiplo do cubo do raio, definido em todos os eixos, profano ou secular.


Man singet mit Freuden vom Sieg in den Hütten der Gerechten: Die Rechte des Herrn behält den Sieg, die Rechte des Herrn ist erhöhet, die Rechte des Herrn behält den Sieg!


“Nas tendas dos justos há jubiloso cântico de vitória; a destra do Senhor faz proezas: A destra do Senhor se exalta, a destra do Senhor faz proezas” (Salmo 118, 15-16)

sábado, 20 de março de 2010

117

Sobrepor música a um coral é exercer a arte do comentário. O poema e a venerável melodia têm o seu lugar determinado no calendário e no culto; todos estão a par de seu sentido cotidiano. Assim, dar a Deus o louvor e a glória parece demandar um solenidade específica, mas o autor aqui sugere uma dança, no ritmo da alegria, como se louvar a Deus fosse coisa leve e divertida. Afinal, insiste o poema, ele fez maravilhas e nosso ânimo enche de amparo.

Mal encerrado o coro, este sucesso já parece minguado. Um comentário, por mais brilhante que seja, está condenado a acompanhar o texto que examina ou a canção que exalta. Apresentar uma nova versão para a alegria do louvor é coisa fácil, um feito quase protocolar.

Então, como quase sempre, uma ária para alto revela uma outra intenção. Não basta a alegria e vem a promessa de cantar, por toda a vida, a glória do Senhor; espalhar seu louvor por todos os cantos. Nesses momentos de confissão, vem o som das flautas e uma melodia cheia de ternura.

Não seria excessivo ouvir nessa ária tão delicada e gentil um testemunho de seu próprio autor, que também passou sua vida a espalhar, por toda a parte, o louvor de Deus. Na obra quase convencional em seu fundamento litúrgico, estamos ouvindo nesse ponto coisa bem mais íntima, quase um testamento, sublinhado com uma melodia inesquecível.


Sei Lob und Ehr dem höchsten Gut,
Dem Vater aller Güte,
Dem Gott, der alle Wunder tut,
Dem Gott, der mein Gemüte
Mit seinem reichen Trost erfüllt,
Dem Gott, der allen Jammer stillt.
Gebt unserm Gott die Ehre!

Louve-se e honre-se ao Bem Supremo,
Ao Pai de todos os bens,
Ao Autor de todos os milagres,
Ao Deus que o meu ânimo
Com abundante consolação robustece,
Ao Deus, que apazígua todas as mágoas.
Glorificai o nosso Deus!




segunda-feira, 15 de março de 2010

169

Longe dos desertos de areia o apelo do ascetismo se enfraquece. A verdade é que a vida é cheia de pequenos prazeres e com a passagem dos anos o coração vai se apegando à doçura da música, das manhãs gastas em preguiça e às pequenas coleções que todos fazemos, mesmo sabendo que um dia serão dispersas. Por que não amar as vozes das crianças, o perfume do travesseiro ou a luz sobre a água do mar? E assim, secretamente, mesmo sem avareza, vamos acumulando tesouros na Terra, desses que os ladrões roubam e os ratos róem.

Para devolver os corações apenas a Deus é preciso transformar em antídoto o que é veneno. Desvelar a presença divina no que pode ser belo nesse vale de lágrimas. Produzir uma exaltação sensual que anule a si mesma e é por isso que a mais brilhante das árias pede a morte da arrogância, do amor às riquezas, do prazer do olhar e os desejos da carne. Uma promessa de negação desse mundo que usa precisamente suas armas mais esplendorosas e seus encantos mais emocionantes.

A música é brilhante, retirada de um concerto dedicado a finos salões e a um educado público, mas não estou certo de que sua intenção realmente funcione. Entre a invocação da morte das paixões pelas coisas desse mundo e a beleza de uma melodia inesquecível, a alma hesita, quer ouvir uma vez mais e, portanto, peca. Os desejos da carne não estão verdadeiramente mortos.

Ou talvez seja apenas mais uma versão daquela famosa oração. Um dos santos, quando jovem, pedia continência e recato para sua vida de loucuras e amores; pedia e ponderava: agora não, todavia. É como a ária para soprano: morrei em mim, sim, mas não agora. Fiquemos um pouco mais em nosso jardim.


Gott soll allein mein Herze haben.
Zwar merk ich an der Welt
Die ihren Kot unshätzbar hält,
Weil sie so freudlich mit mir tut,
Sie wollte gern allein
Das Liebste meiner Seele sein.
Doch nein; Gott soll allei mein Herze haben:
Ich find in ihm das höchste Gut.
Wir sehen zwar
Auf Erden hier und dar
Ein Bächlein der Zufriedenheit,
Das von des Höchsten Güte quillet;
Gott aber ist der Quell, mit Strömen angefüllet,
Da Schöpf ich, was mich allezeit
Kann sattsan und wahrhaftig laben:
Gott soll allei mein Herze haben.

Que somente Deus tenha meu Coração!
Bem vejo que o Mundo,
que seu Excremento entende precioso,
amistoso quer fazer-se a mim,
quer e insiste assim
ser caro a meu Coração.
Mas não! Que somente Deus tenha meu Coração!
Nele encontro meu supremo Bem.
Bem podemos ver
Na Terra, aqui e ali,
correrem Rios de Paz
nascidos da Bondade do Altíssimo,
porém Deus é sua Fonte, de Corrente caudalosa,
dela retiro o que para sempre,
pode deveras e à saciedade me consolar
Que somente Deus tenha meu coração!




quarta-feira, 10 de março de 2010

22

Quem invoca um número invoca um símbolo e Jesus chamou a si os doze. Não se fala a doze pessoas em voz baixa e o anúncio era ainda incompreensível. Todos iriam a Jerusalém para cumprir o destino do Filho do Homem, que seria escarnecido e injuriado, para ressuscitar no terceiro dia. Diz o Evangelista que os doze nada entendiam porque a palavra lhes era encoberta.

O fiel, contudo, não tem o benefício dos doze. Tal como Jesus, sabe o que vai acontecer e quando ouve o tenor cantar o versículo entende a natureza do chamado. Deve estar pronto, como Jesus, para subir a Jerusalém e enfrentar sua própria paixão. A morte de cada um se revela como trajeto: ao hospital, ao local de um acidente ou a um momento imprevisto. Como diz a canção, é preciso estar preparado.

Como Jesus, pronto de ânimo e coração e chamar os seus doze ou mais ou menos. Livrar-se do inútil, do que é pesado, das ânsias da carne e jogar tudo ao chão. Alcançar, antes de tudo, a Paz.

O coral, então, resume e conclui: mata-nos com tua bondade/ desperta-nos com tua graça. Os doze de nada sabiam quando foram chamados; a música já sabe, antecipa e adverte.



Tenor
Jesus nahm zu sich die Zwölfe und sprach:
Bass
Sehet, wir gehn hinauf gen Jerusalem, und es wird alles vollendet
werden, das geschrieben ist von des Menschen Sohn.
Coro
Sie aber vernahmen der keines und wussten nicht, was das gesaget war.

“E, tomando consigo os doze, disse-lhes:
Eis que subimos a Jerusalém, e se cumprirá no Filho do
homem tudo o que pelos profetas foi escrito.”
“E eles nada disto entendiam, e esta palavra lhes era encoberta, não percebendo o que se lhes dizia”
(Lucas 18, 31, 34)



segunda-feira, 8 de março de 2010

202

Elisabete Juliana foi batizada no dia 5 de abril de 1726. Tinha um apelido familiar - Lieschen - e casou tarde para uma moça de seu tempo, em janeiro de 1749, aos 23 anos de idade. Devia ser bonita e prendada, pois foi a única de suas irmãs a casar, mas teve ajuda de seu pai. O marido, João Cristóvão, era seu aluno e ganhou o primeiro emprego por sua indicação. Elisabete não tinha como saber, no dia de suas bodas, que ficaria viúva uma década depois, nem que seu filho, que levava o nome famoso não compleria um ano de idade.

Em janeiro de 1749, a noiva não precisava se preocupar, ao menos, com a música de suas bodas. Seu pai estava nesse negócio há algum tempo e a família certamente ganhava também seu pão cantando e tocando em casamentos. Com que gosto, então, não cantaram e tocaram naquele dia tão belo para Elisabete Juliana.

Bem pode ter sido essa música que descreve com a mais espantosa doçura a simples entrada da noiva na igreja ao lado de seu pai: ela é a flor que anuncia o reino de Flora. Bem pode ter sido a música que divertida lembra que melhor que os deleites de Flora são os deleites do Amor. Nenhum casamento teve música mais brilhante.

Ao fim da cerimônia, naqueles dias, os noivos recebiam a partitura devidamente enrolada, atada com um laço de fita vermelha, como um presente de casamento e testamento do artista que modestamente iluminou a humana festa. Se naquele dia, seu pai entregou a Elisabete esta partitura, que presente não foi!


Weichet nur, betrübte Schatten,
Frost und Winde, geht zur Ruh!
Florens Lust
Will der Brust
Nichts als frohes Glück verstatten,
Denn sie träget Blumen zu.


Ide-vos, tristes sombras,
Vento e Geada, descansai!
O deleite de Flora
Aos Peitos há de trazer
Nada senão Ventura,
Pois ela vem plena de Flores.

 

quarta-feira, 3 de março de 2010

131

O medo da escuridão nos atinge de muitas formas. E nem é tanto a treva da noite, mas a cegueira, a falta de rumos, o silêncio da solidão. Em meio à neblina, os barcos devem tocar suas sirenes, as bóias, no mar, têm sinos. Quando acaba a eletricidade, as crianças ficam ansiosas e caladas; no retorno da luz, há gritos de festa. O problema nunca é a escuridão em si mesma, mas o medo do que nos espera.

Muitas são as formas de clamar. Podemos pedir o perdão na noite escura da alma, declarar a esperança na palavra daquele que há de nos salvar e também prometer a vigília de uma madrugada à outra, como Davi e Manassés. A receita da música é manter sua integridade em um mundo sem luz. Guardar e vigiar para que os monstros não saiam de dentro de nós.

Assim, a grande música se revela uma forma de profecia. Não basta explorar a intenção estética do livros dos Salmos. Mesmo cego, o artista expõe dramas futuros. Em 1708, o verso que recomenda a Israel esperar no Senhor, cantado em alemão, é o reconhecimento emocionado de que os povos germânicos também são contados entre os filhos de Abraão. Em 1945, o mesmo verso apontava para a sombria tragédia que representa a recusa dessa filiação e também para a necessidade da esperança.

A escuridão está sempre à espreita. Acenda uma vela, pois, ou guarde em seu coração a música do rapaz de 23 anos, órfão de pai e mãe, que sabia muito bem como lutar contra a treva da tristeza.



Aus der Tiefe rufe ich, Herr, zu dir.
Herr, höre meine Stimme,
Laß deine Ohren merken auf die Stimme meines Flehens!


Das profundezas eu clamo, Senhor, por Ti.
Senhor, escuta a minha voz;
Estejam os Teus ouvidos atentos à voz das minhas súplicas!
(Salmo 130: 1, 2)



segunda-feira, 1 de março de 2010

64

O apego à vida pode pesar, tragicamente, sobre todos os nossos momentos. Os fatos, os afetos, a beleza sonhada e vivida estão condenados desde o nascimento e de pouco adianta o temor da perda. Os tempos hedonistas de nossa civilização pretendem esconder essa verdade produzindo uma vertigem de fatos, afetos e belezas. O noticiário promete novidades todos os dias e acreditamos, pois é de suma conveniência. Muitas pessoas sensíveis, porém, não suportam a impostura e preferem aniquilar o mundo ou a si mesmas.

Temos, assim, também de nos habituar com a exaltação continuada dos que partem e dos que pelejam com esse Mundo. Gozam, mas gozar é insuportável; viajam, mas clamam no deserto porque o retorno é inevitável. A revolta tornou-se um sentimento de alto prestígio e há profissionais e amadores da revolta contra esse Mundo. Queriam-no permanente e definitivo - não é uma coisa, nem outra.

A interrogação do Mundo tem outros caminhos. A percepção de que o ouro é bem passageiro e que a riqueza é tomada de empréstimo pode dar origem a uma canção suave como uma lembrança da juventude. O Mundo é fumaça e como disse o Imperador, fui tudo e nada vale muito a pena. Estamos sempre nos despedindo: estejamos, portanto, à altura da ocasião.

Nossa morte é como um sono. A existência não merece mais do que árias delicadas, vozes de sopranos e contraltos e um respeitoso "Boa Noite".


Sehet, welch eine Liebe hat uns der Vater erzeiget, dass wir Gottes Kinder heißen.


“Vede quão grande caridade nos tem concedido o Pai, que fossemos chamados filhos de Deus”.
(Primeiro Epístola de João 3, 1)


sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

10

A crença em Deus é também a promessa da Revolução. Está dito que os poderosos serão jogados nos abismos de enxofre e os pobres desta Terra serão como as estrelas do céu. Ele há de tirar dos ricos para dar aos famintos. Que não haja engano sobre isso: muitos santos tremeram pelo destino que aguarda os opulentos. Deus escolheu nascer entre os oprimidos, do corpo de uma mulher.

Sem dúvida há razão para o júbilo, pois uma moça agora carrega uma criança e a promessa a Abraão foi cumprida. Os que estavam tristes podem ser alegrar com o futuro. Essa música, contudo, não traz o tumulto da revolta ou da vingança. A voz da moça escolhida canta uma alegre e luminosa canção galante. Os poderosos são jogados no inferno ao som de uma dança para salão.

O artista, também um dos crentes, consuma a suprema ironia. As leves melodias que exaltam a felicidade terrena e os brilhantes salões de divertimento estão na voz de Maria, a moça judia, e prometem a saciedade aos famintos. A música que soa para a alegria dos felizes nesse mundo agora ilumina a promessa de Deus aos felizes no outro mundo.

A música séria, a música da Paixão, é ouvida brevemente, apenas no momento preciso: no recitativo com as palavras de Deus a Abraão no deserto, cheias de graça e verdade.


Meine Seel erhebt den Herren,
Und mein Geist freuet sich Gottes, meines Heilandes;
Denn er hat seine elende Magd angesehen.
Siehe, von nun an werden mich selig preisen alle Kindeskind.


“Minh’alma engrandece ao Senhor,
E meu Espírito se Alegra em Deus, meu Salvador;
Porque atentou na baixeza de sua Serva;
Pois eis que desde agora me chamarão bem-aventurada”
(Lucas 1, 46-48, versão de João Ferreira de Almeida).



segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

96

Não sabemos qual era a cor dos olhos de Elizabete. Sua vida de menina, criada em um monastério, sempre será um segredo, mas, ao fazer 22 anos, abandonou o hábito e a fé de seus pais e de sua gente. Converteu-se ao luteranismo e fugiu para Wittenberg, onde viveu na casa de seu mentor até casar-se com Gaspar, quatro anos mais novo. Teve uma filha e um filho; faleceu aos 35 anos de idade. Gaspar casou-se novamente.

Por mais que se procure, nada mais se achará, senão que Elizabete escrevia poemas. Naqueles tempos difíceis, em meio a violentas polêmicas teológicas e guerras religiosas, compôs versos que mereceram atenção e foram recolhidos por coleções de hinos, chegando aos dias de hoje. No século XXI, publicações feministas mencionam a primeira poetisa do protestantismo, uma justa exaltação.

Existem mesmo, contudo, diferenças entre versos escritos por um homem e por uma mulher? Se não soubéssemos que saíram de sua pena, diríamos que são versos de uma moça da Pomerânia? Por que homens tão ocupados e sérios reconheceram seu engenho e sua arte? Ninguém sabe, nem saberá, mas talvez seja possível revelar a graça feminina dessa poesia.

Um autor, pai de meninas, poderia compor a música que expõe o segredo da imagem singela e da ternura direta. A melodia e o coral dizendo que Jesus é a estrela da Manhã, pois seu brilho é maior que o de todas as estrelas. Lá estão a valsa, a voz do soprano e o sopro inesgotável do flautim. Música que bem poderia ser composta por uma moça alemã.


Herr Christ, der einge Gottessohn,
Vaters in Ewigkeit,
Aus seinem Herzn entsprossen,
Gleichwie geschrieben steht,
Er ist der Morgensterne,
Sein' Glanz streckt er so ferne
Vor andern Sternen klar.


Senhor Cristo, filho unigênito de Deus,
Pai na Eternidade
De seu Coração germinado,
Conforme está escrito,
Ele é a Estrela da Manhã,
Seu Brilho tão longe alcança
Mais claro que as outras Estrelas.


quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

7

A música e os rios, de várias maneiras, são feitos de tempo. É da sua essência passar e nada mais fácil, portanto, do que expor, em música, o curso das águas de um rio. Corredeiras, cascatas, torrentes e mesmo simples gotas d'água têm uma fácil tradução musical, tão fácil que o mérito de um autor não está na associação, mas em sua chave. Primeiro, não estamos em um rio qualquer, mas no Jordão; depois, não estamos diante de uma cena bucólica, mas do batismo de Jesus; por fim, estão descritas as rasas águas, que correm entre pedras até as mãos de João, o Batista.

Até esse momento, portanto, a maravilha é pouca. As águas, contudo, não correm apenas nos rios; elas seguem também nas veias de um homem. O sangue derramado e as águas que batizam são feitos da mesma substância e podem ter expressão musical semelhante. Em lugar das torrentes feitas de cordas, um coração apenas, que pulsa ao som do violino.

Assim, nesse momento, a maravilha ainda é a mesma. Qual a razão, contudo, de todo esse teatro se não a promessa de Jesus? Quem crer e for batizado, esse será salvo e o segredo de toda a música se resolve no verso que, sem dúvida, acredita. Sobre ele estão os acordes que revelam a bondade de Deus para os que teriam dificuldade em crer.

As águas do rio Jordão e sua música não são, portanto, uma paisagem e seu comentário. São severas alegorias barrocas: escondem o sangue de Jesus e a voz de Deus. Como disse o coral, "os olhos viram apenas a água".


Christ unser Herr zum Jordan kam
nach seines Vaters Willen,
von Sankt Johann die Taufe nahm,
sein Werk und Amt zu erfüllen;
Da wollt er stiften uns ein Bad,
Zu waschen uns von Sünden,
Ersäufen auch den bittern Tod
durch sein selbst Blut und Wunden.


Cristo nosso Senhor veio até o Jordão,
segundo a vontade de Pai,
junto ao santo João, o Batista,
sua obra e destino cumprir.
Para nós um banho sagrou,
para de todo o pecado lavarnos,
ainda afogando a amarga morte
em suas chagas e sangue.


sábado, 13 de fevereiro de 2010

206

Nenhum filósofo há de curar minha alegria. Outros sentimentos podem ser purgados como doença seja no palco de um teatro, seja no susto de um trem-fantasma. Que poemas tristonhos levem de mim todas as lágrimas possíveis, a saudade de meus avós e o que poderia ter sido e não foi. Assim estará muito bem. Minha alegria, não! Quero-a bem guardada em minha alma para uso diário, gota a gota, não vou jogá-la ao vento em uma canção barulhenta.

E por isso a música feita para os rios da Saxônia, para aquela quinta-feira de outubro, não deve ser muito ouvida. Sua substância é o júbilo e a brincadeira feita com as ondas; sua lei, um poema de aniversário; sua promessa, o prazer de viver, pois perto de muita água todo mundo é feliz. A festa acabou há muito tempo e todos os que a cantaram estão agora mortos, mas essa música ainda quer roubar sua alegria, fazer sorrir e dançar até você cansar.

São tantas as maravilhas! Tritões nas ondas dos rios, um monarca dedicado ao amor, à beleza e à paz, açudes musgosos, águas tranquilas, flautas, ninfas e grotas: a idade do Ouro transposta em música. O passado oferece ao futuro invejoso a imagem da felicidade vivida e gozada.

Ao fim, sempre entristeço. O tesouro da alegria tanto guardada deixou algumas moedas douradas caírem nas ondas dos rios. As recolheram antigos fantasmas, reis saxões, figuras mitológicas, fontes e açudes; não estão mais comigo. O coro final, ao menos, promete, para o futuro, mais contentamento e prazer: é assim que seguem os rios.



Schleicht, spielende Wellen, und murmelt gelinde!
Nein, rauschet geschwinde,
Dass Ufer und Klippe zum öftern erklingt!
Die Freude, die unsere Fluten erreget,
Die jegliche Welle zum Rauschen beweget,
Durchreißet die Dämme,
Worein sie Verwundrung und Schüchternheit zwingt.


Deslizai, ondas a jogar, em delicado murmúrio!
Não, ide rápidas,
Fazei soar Margens e Rochedos!
A Alegria que faz crescer nossas Torrentes,
Que cada Onda a quebrar encaminha,
Transborda os Açudes,
Que suas surpresas e modéstia contêm.



quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

198

Pense em uma casa vazia onde vive uma orgulhosa mulher triste. Pense em uma renúncia que será celebrada apenas em silêncio. No tempo que vai passando à espera da morte. Em uma menina que nunca mais dançará. Na melhor resposta ao amor desprezado. Pense na redobrada aposta nas palavras do apóstololo, pois apenas a fé nos há de salvar e o resto é somente uma conduta honrada diante de nossos irmãos pecadores. Pense no significado do exemplo. Agora, ponha música sobre tudo.

Pois a rainha morreu como heroína e lutou em espírito, como nós também deveríamos. Contestou o braço da morte e não deixou que conquistasse seu peito. Não podemos mais lhe conceder coisa alguma, senão a companhia de um cortejo, a promessa da memória e a esperança de que o mal não prevalecerá. Sobre este luto ponha música.

Então ergue-se uma mística prece cujo tema espantoso é o azul safira da mansão celestial cuja luz transfigura a face de uma rainha morta e apaga de sua alma toda a tristeza que existe na Terra. Ela não está mais entre nós.

Não esqueceremos, ó Rainha, até o final dos tempos. Sabemos o que tínhamos em ti. Estamos sós, mas lembramos.


Laß, Fürstin, laß noch einen Strahl
Aus Salems Sterngewölben schießen.
Und sieh, mit wieviel Tränengüssen
Umringen wir dein Ehrenmal!


Deixa, Rainha, deixa ainda um Raio
Escapar das abóbodas de Salém tão cheia de Estrelas
E vê com quantos rios de Lágrimas
Cercamos teu Mausoléu!


sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

100

Nosso destino é retornar. Em 1732, as regras que cada impõe a si mesmo para provar alguma coisa já não tinham mais tanta importância. A idéia de virtuosismo se esgotou e o artifício da citação revelou-se um mero exercício, como uma boa nota tirada na escola, transformada em uma lenda boba sobre si mesmo. O autor sente que deve se recolher para que a obra brilhe. O coral tem de cumprir sua vocação e exibir sozinho o seu significado.

É nesse momento que tímpanos e trompetes em toda sua glória terrena se erguem para celebrar a alegre aceitação do destino, da vida, do bem e do mal que nela houver. A vida precisa ser aceita inteiramente não com o sombrio misticismo dos antigos romanos, mas com a incessante alegria do fiel que crê e está reconcilidado com Deus. Filósofos podem celebrar o amor fati, mas apenas essa música traz a alegria de sermos quem somos.

O resto é quase uma convenção. As vozes humanas trazendo sua cor individual, cada com sua faceta para as estrofes do poema. Quem quiser que goste dessa ária; quem quiser que goste daquele dueto. Não importa muito, porque o coral foi finalmente revelado.

O que está feito, está bem feito e nisso perseveramos mesmo que seja dura a estrada, cheia de desassossego. As coisas que vivi são minhas, eu as guardo e elas paternalmente me protegem. Elas são a minha sina e hão de me guiar. A elas eu deixo comandar.



Was Gott tut, das ist wohlgetan,
Es bleibt gerecht sein Wille;
Wie er fängt meine Sachen an,
Will ich ihm halten stille.
Er ist mein Gott,
Der in der Not
Mich wohl weiß zu erhalten;
Drum lass ich ihn nur walten.


O que Deus faz, está bem feito,
Mantém-se justa sua vontade;
Quando governa meus assuntos,
A Ele hei de guardar em silêncio.
Ele é meu Deus,
Que na Tristeza
Sabe bem como me guardar;
Portanto a ele só deixo comandar.


terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

98

Contornos sempre podem ser diferentes. Tomada a decisão da referência, é inexorável a liberdade para os formatos. Não é preciso que o coral tenha, em torno do si, outro coro - um elemento do mesmo conjunto. Há o evidente risco de repetição e monotonia. Uma alternativa se apresenta naturalmente: um instrumento solista.

Cabe ao violino, então, um outro trabalho: expor as melodias que vão unir o coral da vontade de Deus com outra poesia. Sim, pois o formato do poema também pode ser abandonado, em favor de uma expressão mais lírica do sentimento de quem sofre com o destino. Aquilo que é feito e não aceitamos ainda que é ben feito.

Na verdade, o autor não se prende mais a nada. Os recitativos se estendem, falam do poder da prece, da porta aberta do Pai e tudo termina sem um coral. Ou melhor, com uma ária, cujo texto vem de outro coral. Os cordames de melodia já se romperam há algum tempo e apenas o violino sustenta agora o conjunto da obra.

A citação original sobre o que está bem feito quando está feito nem é mais lembrada nessa música de 1726.

Was Gott tut, das ist wohlgetan,
Es bleibt gerecht sein Wille;
Wie er fängt meine Sachen an,
Will ich ihm halten stille.
Er ist mein Gott,
Der in der Not
Mich wohl weiß zu erhalten;
Drum lass ich ihn nur walten.


O que Deus faz, está bem feito,
Mantém-se justa sua vontade;
Quando governa meus assuntos,
A Ele hei de guardar em silêncio.
Ele é meu Deus,
Que na Tristeza
Sabe bem como me guardar;
Portanto a ele só deixo comandar.


quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

99

A citação é um ofício sofisticado. Ela estabelece uma conexão e também reparte significados; oferece um recorte que ilumina uma frase, mas também exalta ou condena o texto de onde ela veio. O comentário é sempre menos importante que a Escritura e, ainda assim, como o seu sentido seria exposto? Na música, o exercício parece, à primeira vista, inviável: como citar uma obra sem cometer um plágio? Como seria possível comentar uma melodia com outra melodia?

Algumas condições precisam ser cumpridas. Uma das melodias precisa ser tão conhecida - como um coral religioso -, tão simples e tão venerável que a alusão seja imediata e sua reprodução sustentada pela mais pura das intenções. Todos sabem que música é aquela, porque está ali e qual o seu sentido cotidiano. A outra melodia precisa, por sua vez, ser o exato contrário: desconhecida, arrojada, cheia de truques, imaginosa. Escondendo, então, os estratagemas da harmonia, esta se lança sobre a outra como guirlanda e ornamento, amiga feia ou amiga bonita, são melodias, afinal.

Esse é o truque; a obra prima é conduzir a arte da citação. O coral da resignação e da confiança em Deus, composto por Samuel, ganha uma companhia alegre e divertida. As sugestões militares do comando e do poder vão ficando meio floridas e por isso deixa-se Deus comandar com mais confiança e tranquilidade.

Essa música é como uma boneca russa. Dentro de uma, tão sorridente, há outra e mais outra e assim por diante. Na ordem direta e inversa. Uma matriochka de 1724.

Was Gott tut, das ist wohlgetan,
Es bleibt gerecht sein Wille;
Wie er fängt meine Sachen an,
Will ich ihm halten stille.
Er ist mein Gott,
Der in der Not
Mich wohl weiß zu erhalten;
Drum lass ich ihn nur walten.


O que Deus faz, está bem feito,
Mantém-se justa sua vontade;
Quando ele governa meus assuntos,
A Ele hei de guardar em silêncio.
Ele é meu Deus,
Que na Tristeza
Sabe bem como me guardar;
Portanto a ele só deixo comandar.


quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

127

Uma arte programática floresce apenas no limite de suas intenções. Comprometida com uma mensagem, vai perdendo de vista a ambiguidade da vida humana. Chorar é somente chorar; o riso é sempre o riso. A linguagem escrita ainda tem à sua disposição as sete formas da imprecisão; a música não tem o recurso da ironia e corre o risco - ainda pior - do descabido. Nenhum compositor criaria melodias alegres para versos fúnebres.

Talvez não estejamos, contudo, diante de uma arte programática ou de um mero compromisso com o calendário religioso. Uma meditação, nesse ponto, causa estranheza. O crente que diz não temer a Morte, pois confia na promessa de Jesus, não deveria estar tão pesaroso. Essa melodia, claramente, não transmite uma confiança incontestável: há nela um mistério.

É porque estamos aqui ouvindo, quem sabe, não a prece confiante de quem crê, mas a mágoa de quem muito sofreu e intimamente se pergunta qual a razão desse padecer. A Fé não elimina o problema do Mal, mas o exalta. Bento XVI, naquela cidade polonesa, também indagou sobre o silêncio de Deus.

A música dessa ária certamente não pretende propagar a descrença e a desilusão. Confia em Jesus, mas está perplexa e ferida.


Herr Jesu Christ, wahr' Mensch und Gott,
Der du littst Marter, Angst und Spott,
Für mich am Kreuz auch endlich starbst
Und mir deins Vaters Huld erwarbst,
bitt durchs bittre Leiden dein:
Du wollst mir Sünder gnädig sein.


Senhor Jesus Cristo, verdadeiro Deus e homem,
Ó tu que sofreste o Martírio, o Escárnio, a Angústia
Por mim na Cruz finalmente morreste
E para mim o Indulto de teu Pai conquistaste,
Imploro por teu amargo Penar:
Concede a graça a mim Pecador.




sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

137

Perguntas retóricas têm uma longa história. A fúria do tribuno e o sarcasmo do tirano sempre usaram com grande eficácia a pergunta que não tem resposta, a pergunta que só admite em retorno a violência ou o silêncio. A música, contudo, não tem a possibilidade do gesto físico e não poderia responder se calando. Normalmente, a música oferece sua própria resposta. Afinal, o que fazer com um ponto de interrogação?

A célebre ária da águia termina, de fato, com uma pergunta: não percebes estas coisas? Assim o faz, contudo, porque a resposta veio antes, na música que comprova o comando do Senhor sobre as coisas, oferecendo ao ouvinte os horizontes celestes do vôo das águias. A frase do violino ergue-se como as poderosas asas do pássaro, em companhia do soprano, subindo a um céu azul de nuvens. A alegria do vôo está toda na melodia e ela é o poder de Deus. Não percebes estas coisas?

Outro artista teria se conformado com uma obra prima, uma jóia musical tão preciosa que guardaria para outras ocasiões e outros versos, mas ele julgou prudente terminar com o louvor de Deus e com uma lembrete para a alma: Não esqueças. Outra obra prima, cheia de auto-referência.

Diante deste verdadeiro coro místico, breve e cabal, cheio de ânsia pelo verdadeiro céu, só resta seguir ao pé da letra a recomendação de seus versos e concluir também a nota com um Amém. Amém.


Lobe den Herren, den mächtigen König der Ehren,
Meine geliebete Seele, das ist mein Begehren.
Kommet zu Hauf,
Psalter und Harfen, wacht auf!
Lasset die Musicam hören.

Louva o Senhor, o poderoso Rei da Glória,
Minha amada Alma, esse é meu Desejo.
Vinde em Bandos,
Acordai Saltério e Lira!
Deixai que a Música seja ouvida.



quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

135

Ele tem o segredo da música para a paixão. Há que ser dolente e cautelosa, pois o coração apaixonado está vulnerável e caminha como uma criança indefesa. A música da paixão é também solene: a ambiguidade da vida e das palavras já ficou pelo caminho e não há mais como rir, nem do quê. Pressentimentos terríveis são anunciados porque recuar será impossível, o sofrimento é inevitável e, na verdade, é buscado como o caminho para a redenção e a morte. A paixão, todos sabemos, termina na morte.

Essa música não precisa estar apenas no lamento de Pedro, que três vezes traiu a Jesus, no coral sobre o paciente cordeiro das dores, no acalanto para um homem morto ou no reconhecimento de que, verdadeiramente, sim, verdadeiramente, aquele era o Filho de Deus. Ela tem uma tonalidade que de pronto reconhecemos. A música da paixão pode espreitar os versos da confissão e do pedido de paz.

O mesmo coração que cercou suas criações com a matemática dos sons legou ao futuro a música da paixão, uma humana meditação sobre aquele, inocente, que morreu por todos. Generoso, deixou também que ela soasse sobre o sofrimento do pecador, aquele, como se fosse culpado, morrerá como todos.

Essas são, contudo, apenas palavras, que não são dignas nem de descalçar as sandálias da música da paixão. Um singelo milagre.



Ach Herr, mich armen Sünder
Straf nicht in deinem Zorn,
Dein' ernsten Grimm doch linder,
Sonst ist's mit mir verlorn.
Ach Herr, wollst mir vergeben
Mein Sünd und gnädig sein,
Dass ich mag ewig leben,
Entfliehn der Höllenpein.


Ah, Senhor, pobre de mim pecador,
Não me punas em tua Cólera,
Modera tua ira severa,
Ou estarei perdido.
Ah, Senhor, que sejam perdoados
Meus pecados e tende compaixão,
Para que possa para sempre viver,
E escapar das penas do Inferno.




quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

20

A existência de Deus não resolve os problemas do Infinito. Em verdade, a alma pode contemplar sem estranhamento e sem angústia as vastidões estreladas do espaço, pois o Deus que se fez Homem é também o criador das galáxias, aquele que fixou o curso do tempo imensurável. A glória da Criação - a infinitude do Universo e a finitude do Homem - é a mesma. O Deus que é bom, contudo, é o Deus que é justo e Ele julgará os homens do dia do Juízo e também eternos serão o castigo e salvação. Eternidade, eis o problema: ela pesa tanto sobre a ventura e como sobre a atroz punição.

A um artista imaginoso não escaparia o espanto de um tal contraste. O primeiro coro, portanto, eleva o espírito à contemplação dos espaços infinitos, lentamente, como alguém que ergue seus olhos ao céu estrelado e pouco a pouco compreende e se maravilha: Ó eternidade! A abertura francesa se estende em uma saudação ao grandioso Universo, que abala nosso coração e cala nossa língua. Um coro que diz, em seu verso final, que não pode mais falar.

A eternidade não é, contudo, uma brincadeira. Eternas são as chamas, eternos o castigo e o penar. O coração se angustia, pois dura tanto a eternidade. E o remorso vem, o medo, quando o pensamento segue para as ações e o pecado. Música feita para a desolação.

A única solução, todos sabem, a única esperança é o caminho do Bem. Um conselho cheio de doçura, destinado aos homens ainda perturbados pelo Infinito e pelo Inferno: liberta tua alma. Há compaixão nessa música.

O Ewigkeit, du Donnerwort,
O Schwert, das durch die Seele bohrt,
O Anfang sonder Ende!
O Ewigkeit, Zeit ohne Zeit,
Ich weiß vor großer Traurigkeit
Nicht, wo ich mich hinwende.
Mein ganz erschrocken Herz erbebt,
Dass mir die Zung am Gaumen klebt.


Ó Eternidade, tu Palavra do Trovão,
Ó Espada que transpassa a Alma,
Ó Início sem Fim!
Ó Eternidade, Tempo sem Tempo,
No grande Luto eu nada vejo
Para onde possa me voltar.
Meu Coração aterrorizado treme,
Minha língua cola no céu da boca.



sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

148

Creio que a história da filha de Jairo é apenas um referência. Não parece existir muita coisa sobre o desespero do chefe da Sinagoga aos pés de Jesus, as recriminações ouvidas, a multidão em torno de uma menina enferma, os lamentos e o barulho, ela apenas dorme e a maravilha e o espanto de todos que lá estavam. A turbulência das paixões humanas, a graça concedida e a celebração do milagre inefável não estão ali. Suspeito de outra coisa.

A deliciosa frase do trompete é uma prova evidente de que o artista se deixou levar por outra imagem, exposta no verso do Salmo. O que é essa melodia brilhante, complexa, desdobrada em sutilezas e doçura, senão o atavio sagrado, o manto do culto ao Senhor, com que foi vestida a sua obra? Sim, vamos celebrar o milagre - menina, levanta -, mas devidamente aparatados. O maestro naquele dia exibia sua melhor roupa, uma roupa feita de sons.

É desse modo que se produz uma complexa organização de símbolos, onde nada é direto e linear, onde vários planos se articulam sem dominância. Celebramos o milagre trazendo a glória ao nome de Deus, mas a música é tanbém o atavio do celebrante, na verdade, o duplo do pastor, trazendo seu próprio sermão musical.

A demonstração rigorosa vem na ária para tenor, cheia de duplo sentido. Pois os fiéis vêm ouvir o ensinamento cristão, o milagre de Jesus e também a música do Cantor. A casa celestial pode ser São Tomás, mas é também o céu, onde soa o coro dos Anjos, que um dia também tocará essa música terrena e assim por diante.

Bringet dem Herrn Ehre seines Namens, betet an den Herrn im heiligen Schmuck.


Honrai o nome do Senhor; orai a Ele com Atavios sagrados.



terça-feira, 12 de janeiro de 2010

143

A idéia de louvor pode assumir muitas formas. Há igrejas completamente talhadas em pedra a exaltar o engenho das criaturas de Deus e corais plenos de trompetes e vozes sobre vozes, querendo imitar o coro dos Anjos. Páginas e páginas impressas com orações e sermões - uma obsessão nem sempre frutífera. A regra é o excesso; o singelo, a exceção. O verso do salmo é apenas um ponto de partida e é muito difícil, após milênios, ser original.

Difícil, mas não impossível e logo no primeiro coro o trompete apresenta um longo sorriso. Menos que o testemunho de um esforço humano para honrar a Majestade divina, ouvimos o deleite da Alma exposto em música. Jesus Cristo, afinal, é o Príncipe da Paz e a vida pode ser tão cheia de infortúnios e temores. Por isso, nada de tristezas: o Senhor é Rei por toda a eternidade e Deus de Sião. Alívio, portanto, graça, floreios do trompete e da voz humana.

Há mesmo dança nesse louvor e o coro, logo em seguida, pede a Jesus em um verso quase infantil que Ele não esqueça de seu ofício. Por isso, querem os fiéis entoar, em Paz, a divina palavra.

Tornou-se um convenção, nos dias que seguem, quebrar convenções. Os modelos antigos devem ser abandonados; o novo, porque novo, é necessariamente bom. Em verdade, para ser mais que uma tolice, o novo precisa de fundamento real, mais que meras palavras. É assim que ouvimos aqui um sorriso dentro do louvor, o prazer do crente. É velho e novo, ao mesmo tempo.


Lobe den Herrn, meine Seele

Louva ao Senhor, minha Alma


quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

150

E subitamente são as montanhas do Líbano. Brilha o sol sobre a neve das alturas, estamos com os veneráveis cedros, as árvores que foram também tantas naus e o madeiro dos templos. E são os ventos que movem nossos cabelos e o verde de tantas folhas, ventos feitos por violoncelos, canção que é como uma prece ouvida à distância. E são as tempestades que ameaçam esses troncos, que os lançam sobre o chão e há nisso uma lição.

Devemos em nada prestar atenção, mesmo entre os ventos das montanhas do Líbano, mesmo entre os troncos dos cedros derrubados, senão no ensinamento que conduz nossos atos. Pois mais tarde, uma chaconna terrível, antecipando outras, informa que Jesus todos os dias luta a nosso lado, nos faz vitoriosos e que nossos dias de penar hão de ter um fim.

São músicas estranhas, não há dúvida, cheias de uma exaltação religiosa incomum, capazes de transmutar o mais convencional verso de um salmo em um teatro de emoções dramáticas, como estátuas que usassem máscaras terríveis em paisagens inóspitas.

Houve quem duvidasse da identidade de seu autor. Seria mais inteligente perceber outra face da mente que a concebeu. Sob a resignação luterana, o sentimento do sinistro; sob a poesia moral, tempestades de ventos e chaconas.


Nach dir, Herr, verlanget mich. Mein Gott, ich hoffe auf dich. Laß mich nicht zuschanden werden, dass sich meine Feinde nicht freuen über mich.


“A ti Senhor, levanto minha alma. Deus meu, em ti confio, não me deixes confundido, nem que os meus inimigos triunfem sobre mim.” (Salmo 25 1, 2)